SOROCABA - SP
Ini e La Carne - 04.09.09

A gente já tinha tocado outras vezes em Sorocaba. Mas isso foi há muito tempo, lá no século passado. E aí que ficamos super empolgados com a possibilidade de poder voltar pra lá depois desse tempo todo.

Só que na semana do show, o PEU, baixista do INI, mandou a notícia clássica que acomete todo “bar de rock” – a vizinhança reclamou e a pulíça baixou lá e agora até segunda ordem não tem mais banda de rock.

Aí que o PEU não teve dúvida, mandou o show lá pro estúdio deles, que fica na casa dele, que fica no Éden (vai vendo, um Éden do rock, hahahha), que é um bairro um pouco distante do centro de Sorocaba, que tem uma pá de boteco pé-sujo e várias casas do norte e pizzarias e bares cheio de gente que tavam dançando um forrozão. Sensacional.

E aí que a parada foi assim. Quando entramos na rua do estúdio, uma rua só e exclusivamente de casas residenciais, já veio a dúvida: “Ixi, como é que vai ter som aqui? E essa vizinhança? Xíí”. Pois bem, e não é que os caras são tudo brother na rua? E é mó barato, uma rua sem saída que todo mundo é brother de todo mundo. Vai vendo. Gente que toda hora faz uns lance coletivo ali, festas, churras, etc, etc, etc. Aí que o Peu já tinha ido de casa em casa e explicado a situação, explicou que eles tavam inaugurando o estúdio, que ia ter duas bandas, que a rua ia ficar cheia de gente, que eles iam apenas comprar cerveja e vender pro povo, etc. Aí a vizinhança disse tudo bem e tâmozaí. Dá pra acreditar?

Pra quem - como nós - que quando começamos a tocar tinha de ensaiar no quintal de casa, ouvir encheção de vizinho e ameaças de chamar a pulíça e tals, aquela cena ali foi incrível.

Quando chegamos no lugar já tinha uma galera na casa. Portão escancarado, carros na rua, gente pelos cantos da casa, na rua, no estúdio, no fundo, no quintal, bandas de Sorocaba, amigos de longa data, fila pro banheiro e por aí vai.

Antes dos shows ficamos lá bebericando com o povo. Nêgo vinha e comentava que conhecia a gente há uns 5 anos. Que aquela música tal ele copiou pros amigos e aí outros foram lá e fizeram uma pá de cópias também. Lembramos do antigo Stratocaster, onde tocamos uma vezes e onde conhecemos o Jack Navarro, o bar dos motoquêro, o Iskizo, o Vzyadoq Moe e mais uma galera de Sorocaba.

E nisso ia chegando gente e mais gente. A cena era assim, se aquilo fosse o show no bar, o cara do bar ia ficar felizão com a grana que ele ia ganhar de entrada, fora a grana da cerva e por aí vai. Mas tava todo mundo ali sem pagar um puto. Só pagava a cerveja. Parecia aquelas festas do Studio Eleven, saca? Classe pra carai. Perdeu plêibói!       

Aí que o estúdio tava cheio, e tivemos que dar uma sapiada lá de fora enquanto o Ini começava o seu show.

E ó, saca quando você tá trocando idéia e de repente aquele som vem de longe e você comenta assim com teu amigo: “carai..”. Aí que, tal a rapidez do som, as paradas, o ritmo fu-di-do da batéra, os vocais entre melódicos e berrados, ficamos em dúvida se era um Mars Volta ou um At the Drive-In lado B e tals que tava tocando no som da festa. “Carai...”. Aí, logo você se dá conta de que os caras é que tavam no estúdio, aquela gente toda ali espremida ... logo ... “Puts, são os caras?” Sim, era.

Como dizia meu finado vô, “vou te dizer pra você”. Um som de responsa, viu? Os caras animados, uma bateria insana, duas guitarras duelando pra ver quem fala mais alto, o baixão se impondo no meio da trêta toda e um vocalista no melhor estilo The Stooges. Depois disseram modestamente que ainda tão gravando uns sons, que não tocam a música tal, que tão começando, etc, etc. Hã-rã. Sei. Mas ó, fudido o show, viu? Do senhor caráleo! Ouça eles aqui e aqui.

Nisso sai todo mundo e vai pegar mais cerveja enquanto nós ficamos lá montando nosso som. Liga aqui, pluga ali, pôe o mic aqui, dá um alô ali e tchuns, como diz o Silvio Santos, valeeennndo!

Catarse. Baderna. Murros no ar. Roda punk-rock e gente virando de ponta-cabeça. Foi assim. Música atrás de música a coisa ia se expandindo. Não tinha palco, o povo te encarando e você tentando arrumar um espaço pra dizer aquela frase, nota ou aquele berro de refrão. Em alguns sons a coisa saiu do controle. Literalmente. E fechamos com “De uma lembrança estranha”, do primeiro disco, que nunca mais tocamos. Fora uma vaza aqui, outra ali, até que saiu istálie.

Depois rolou uma brodagem com todos ali. O Peu, o Ferraz, todos do INI, a Duda, a mãe do PEU, o pai do Heraldo e mais uma pá de gente.

Ó, quem tava ali e não conhecia a gente, pode achar que é sempre assim. Que os shows rolam sempre nessa insanidade e tals. Mas não é toda hora assim, não. O show rolou legal porque o povo ali tava curtindo, porque os caras não se desanimaram com a treta do bar e armaram uma festa pra mostrar como é que se faz e no final deu tudo certo.  

Já tocamos em lugar que nêgo te olha com mão no queixo e diz que teu som remete a algo que já foi feito no interior da Iscandinávia por uma uma banda que saiu na Ilustrada. Ou seja, você é um looser. E segundo a crítica dos especialistas na questão, se você tiver bom senso deve mudar de ramo o mais rápido possível.

Falô.

Ah, depois também ficamos sabendo do lance do Gerador que eles armam ali na cidade. Ó que cabulozo, a coisa funciona assim:

Os caras levantaram uma grana com umas bandas e aí compraram dois geradores e chegam em qualquer lugar da cidade, ligam tudo ali e colocam a banda pra tocar. Foda né? Simples assim. Desse jeito, quem que precisa de “bar de rock”, nénão? É disso que a gente sempre fala, iniciativa. Não depender de féladaputa nenhum, não ter que passar pelo constrangimento de quando você vai tocar em algum lugar o nêgo te tratar mal e você ainda soar meio que pelamor-de-deus-deixa-eu-tocar-aí. Sem chance. Indie rock? Chupa. O que liga agora é Gerador-Rock. Pronto, taí um novo termo que a imprensa musical já pode usar. “-Quem som que vocês tocam? Quais as influências da banda?”. “-Ah, a gente é influenciado pela vida, o universo e tudo mais. Nosso som é Gerador Rock.”.  J  

Yeah, baby!

E foi assim o rolê pra Sorocaba. Valeu a todos pela brodagem e ao INI pelo convite. Tomara que possamos marcar outra gig dessas, certo?

E vamo que vamo.

Tâmojunto.