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Diário de Bordo por Mr. Fernando Lalli (Bôi)
(Thanks, man!)
Domingo de manhã.
Porra. Minha perna dói. Meu corpo inteiro dói. É o décimo dia seguido que não consigo dormir mais do que quatro horas. Agarro o relógio com seu maldito alarme intermitente e quero jogá-lo na parede. Aí percebo que até a minha mão dói. E lembro das porradas que dei no amplicador, ontem. Ele mereceu. Lembro também do motoqueiro filho da puta que vinha a milhão pela rua e bateu na traseira do meu carro quando freei para fazer uma curva, enquanto voltava pra casa. Pelo menos ele e o carona só se ralaram um pouco e não tive que levar ninguém pra hospital nenhum. Mas lavaram meu carro com a pinga que carregavam. Aberta.
À duras penas, levanto da cama para assistir Felipe Massa largar dos boxes e chegar apenas em quinto, enquanto Kimi Raikkonen ganha a segunda corrida seguida. Praguejo aos infernos. Demoro meia hora para levantar do sofá, ir à cozinha comer alguma coisa, vestir uma roupa e ir trabalhar. Sim, trabalhar no domingo à tarde.
Tudo isso faria meu humor abrir falência se não fosse o festival beneficente que aconteceu na Chopperia Óbvio em Pindamonhangaba, sábado, no cabalístico dia 7 de julho de 2007.
Os La Carnes, esses tratantes lazarentos de uma figa, não compareceram à preliminar do show: um almoço regado na casa do Zé Ronconi, baterista do Seamus e anfitrião do festival. Lá estava todo mundo: A Bandinha, Hierofante Púrpura, Milocovik, o artista gráfico Gabriel Ronconi [co-anfitrião], o exímio retratista Fabrício Brizon, as namoradas, os amigos, os novos amigos, etc. Todos saboreando os maravilhosos rocamboles de carne do sr. Ronconi Senior, pai do Zé e do Gabriel.
Deu 16h30, fomos para a Chopperia Óbvio armar o circo. Arrancaram as paredes da frente do palco - aliás, fizeram um. Ficou muito bom. Juntaram-se a nós os La Carnes themselves e Welington Dias [que infelizmente, na semana que se passou, decretou encerradas as atividades do Gramophone - esse sim, um zine que fez e faz jus ao adjetivo "honesto"]. Quem não ajudava o Kalil a montar o som ficava tomando cerveja lá embaixo, enquanto o público surgia timidamente. Pensei até que ia zuar o pico, que ninguém iria aparecer. Que nada. Às 19h, quando A Bandinha começou a tocar, o povo começou a chegar. Ufa.
Pô, A Bandinha. Taí um show divertido. Depois de ter visto o tosquíssimo clipe de "Groupie" no You Tube, confesso que não esperava muita coisa. Pois não é que eles tem feeling pro lance? A pegada ao vivo é power-trio bubblegum com letras no limite da cara-de-pau. No final, cover a la Yahoo para "Alô", de Chitãozinho e Xororó. Não há mau humor que resista.
Depois, Milocovik. Uns bróders de São Paulo que começaram como [uma boa] banda cover de indie hits e agora vêm se aventurando em uma ou outra composição própria. Tocaram duas nesse show - e caso eu não conhecesse Kaiser Chiefs e Kasabian, não saberia diferenciá-las do restante do repertório. A rapaziada tem a mão boa e logo eles aparecem com umas gravaçõezinhas massa. E, porra, o guitarra já tocou com o Paul Di'Anno. Nada, nada, pode ser um sinal. Why not?
Enquanto os shows comiam solto no palco, havia um telão atrás do palco passando filmes clássicos como The Evil Dead, Alice no País das Maravilhas [o da Disney], Laranja Mecânica, Um Câo Andaluz, entre outros.
Aí que, quando chegou a vez do Hierofante Púrpura, meteram um documentário sobre filmes pornô dos anos 20. Bizarro é pouco. Danilo, Gabriel e Diogo seguram bem a bronca como trio. Baques como o que eles levaram só vêm para o bem quando a banda é forte. Como no caso deles. E todo mundo cantou "A Redenção". "Não cabe a mim só prolongar, trancar-te a sete chaves...". Long live Hierofante!
Quando chegou a vez do Seamus, eu estava bêbado, puto [com o meu amplificador que não parava de roncar], gripado e rouco. Um show ébrio, sem direção, sem setlist [ok, tinha um - que ninguém leu]. Se foi bom, sei lá, aí vai de cada um. Fosse o Arthur Nestrovsky lá, odiaria. Eu vomitei muita coisa naquele microfone. Usava todas as minhas forças para arrancar aquilo da minha garganta. Quase apaguei, uma hora. Não lembro de ter feito nada daquele tipo em público antes. No final, "Blame", um certo Marcos Linari foi tocar guitarra no meu lugar. Puta honra. Terminasse ali, meu dia estaria muito bem.
Mas ainda tinha La Carne.
Não tem como competir. Mesmo baleado, como eu estava, o som de Osasco te invade pelos ouvidos e faz você arrancar forças do nada para vibrar. Acenderam o pavio com "Viaduto do Sol" e aí já era. Teve "Sobre a Revolução", "Mala Suerte" ["Aaah, reza a lenda que nessa casa morava uma lôca"], "Contra a Corrente", "Blues dos Seus Absurdos" [essa arranca a pele], "Quem Aqui", "Tava Aqui Pensando"... Foda é que o som tinha que acabar [Prefeitura pegando no pé do dono do bar] e o setlist era grande demais [para o prefeito, claro]. Disseram que dava pra tocar mais uma e mandaram "Bom Dia, Barbárie", atendendo a pedidos.
Sabe, eu sou da roça. Botaram umas dezenas de indústrias, asfaltaram as ruas, mas a mentalidade continua a mesma, disfarçada sob um cinismo classe-média. Não tem lugar pra tocar em Taubaté. Tem barzinho de MPB e/ou banda cover. Aí tem Pinda, cidade de gente bêbada e desocupada, que encontra refúgio na música, no róque. Lá tem palco legal. Lá deixam a gente tocar em paz, fazer um evento préza, com intervenções de arte: Gabriel & cia vendiam camisetas, bottons, pintavam as paredes e expunham seus desenhos. Quando um evento dá certo, aqui na região, como foi nesse festival, eu fico feliz pra caralho. Tipo, "não estou sozinho nessa merda", saca? Nunca aconteceria em Taubaté. Aconteceu na pacata cidade vizinha, que ainda não se blindou para a manifestação espontânea anti-pré-fabricada de um bando de porra-loucas, como nós, que só queremos ter nossas bandas tocando por aí. Porque, lá, há tantas outras pessoas que anseiam por música de verdade. Como nós.
"Eu, pra ser feliz com mentira
É melhor que eu chore com fé ao vivo."
Taiguara.
Abraços,
Bôi.
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