FRÁGIL. MANUSEIE COM CUIDADO.


E aí que no dia do show do Jive era um sábado de feriado em São Paulo, tava chovendo e ainda tinha de levar os amplis de guitarra e baixo.

Passamos pela porta de entrada e já tinha uns funcionários de cara cinza. E lá dentro tava na mesma pegada da última e fatídica vez que tocamos lá. Sofazinho, luzes vermelhas, abajures, quadros, etc, etc, etc. E, pra você se sentir muito melhor, uma cerveja saía pela módica quantia de 6 reais e uma dose de vokda era 11 reais.

Bem, era um novo dia. Talvez até tivéssemos sorte. Ou não. 

Aí passamos o som e depois resolvemos beber em alguma padaria ou bar ali perto antes de começar o show. Achamos uma padóca e ficamos ali na cervejinha, cigarrinho e uma barata que passou perto e que disseram que era tão grande que se marcar ela até latia.

Nisso, vindo de uma festa lá da sede do Sinfonia de Cães, e pós show do Vincebus, chegam os eternos brothers-sangue-bom do Água Pesada.

Já era umas 24h quando fomos meio que colocados pra fora pelo dono da padaria. Nisso, resolvemos seguir pro JIVE, que fica ao lado do clube Piratininga, que tava tendo uma daquelas festas com banda de baile e pessoas bem vestidas e cabelos bem arrumados e pretinhos-básico e até um lá com poodle no colo. Alta sociedade, sabe como é... Perto também tinha o Angélica Grill, um restaurante istilozo que ficamos com vontade de entrar e pedir “Mê vê um champagne e um pão na chapa?” :)

Quando já estávamos ali na frente do JIVE, chegaram amigos de Mogi, de Osasco e de uns bairro distante de sampa, mais o Leandro Monaural e sua guría. E ficamos embassando bastante pra entrar, sei lá, parece que algo nos dizia que lá fora seria mais esquema e que o clima estaria melhor do que lá dentro, algo assim.

Enfim, entramos. Quer dizer, ficamos na porta. Aí o segurança mandou parar. Fechou a porta. Depois que liberou umas pessoas que tavam na frente, entramos. O cara passa a comanda. “Viu, nós somos da banda. Tem desconto pra gente?”. O cara olha e confere algo na mesa: “Vocês tem isso aqui de consumação”. PLAFT! Bate o carimbo e passa a comanda e olha pro segurança abrir a porta e deixar entrar mais duas pessoas. Eficiência é isso aí.

Aí tava rolando som na pista e eram basicamente nossos amigos que estavam ali. Apenas um ou outro que não conhecíamos. No geral, eram pessoas que tinha ido ali pra ver o show e passar um tempo e, na medida do po$$ível, tomar alguns tragos.

De repente, entra um fiscal acompanhado por 2 pulíça. Imaginamos que estavam ali vendo o lance de nêgo não fumar no recinto, etc, etc. Achamos meio estranho isso, mas passou batido. Whata hell?

Nisso desci pra um cigarrinho lá fora e tava uma muvuca na porta. Segurança na entrada, pulíça e fiscal do lado de dentro, porta fechada e aí ouço algo do tipo “Fecha. Não entra mais ninguém...”.

Ai vi que alguma merda tava rolando. Como quem não quer nada colei ao lado do homem da lei e fiquei sapiando a conversa. “Alvará isso. Lei aquilo. Falta disso. Não tem aquilo e a ordem é pra fechar.”.

Não sei porque, mas na hora me veio aquela imagem daqueles adesivos de “Frágil. Manuseie com cuidado” escorrendo pelas paredes. Dava pra sentir a decepção e o sorriso amarelo de todo mundo. Era como se alguém tivesse jogado um copo de água na sua vodka e te dissessem “VOCÊ SE FODEU!”

Subi em silêncio pra contar pros amigos o que tava rolando. Não dava pra acreditar, era muita zica. De novo, naquele mesmo lugar, outra trêta, outro dia de merda. De novo, de novo e de novo.

E a gente vive num mundinho de merda, né Ayuso?

Depois ficaram aqueles comentários à boca pequena, gente saindo sem entender nada e aquele mal estar característico de situações como essa.

Os amigos, um a um, foram embora. E eles sabem que sentimos muito por essa merda toda que rolou. Mas ó, daqui a pouco tem outro show e a gente vai dar tomar umas e dar risada de tudo isso. E sim, mesmo com essas tretas, pra gente isso ainda é um bom jeito de se levar a vida.

Depois, a gente só queria sair dali e acabar com tudo aquilo bem rápido.

Quando saímos os caras-cinzas ainda estavam lá, os carimbos estavam sendo batidos fechando as comandas, o segurança abria e fechava mecanicamente a porta e eu ainda com a idéia do adesivo:

“Frágil. Manuseie com cuidado.”


FIM